Matéria revista Fut! (Lance) - novembro/2008

Metamorfose
Além do avanço da Medicina e das novas tecnologias, as mudanças de comportamento, costumes e evolução da sociedade são essenciais para determinar o desaparecimento de algumas doenças e o surgimento de outras.


Quais doenças estão fadadas a sumir? O que é preciso para dizimar ou diminuir a incidência de enfermidades? E qual é o nosso papel – da humanidade, não só Medicina – nessa história?
Entrevistamos o Dr. Paulo Olzon, Chefe da Disciplina de Clínica Médica da Unifesp, para entender melhor quais são as causas que colaboram para que algumas doenças deixem de existir e, em contrapartida, outras apareçam. “Existe uma tendência de doenças infecciosas desaparecerem, mas, por outro lado, fatores como poluição, alteração das condições naturais do meio ambiente, superpopulação e expectativa de sobrevida do homem favorecem o surgimento de novas doenças”, diz.

Risco de extinção
O Dr. Paulo aposta no desaparecimento, em cerca de 10 anos, de doenças infecto-contagiosas, como sarampo, caxumba, rubéola, catapora entre outras, a exemplo da varíola, erradicada em 1980 por meio de vacinação.Segundo ele, dois fatores são responsáveis pela redução dessas doenças: melhora das condições de saneamento básico, refreando a contaminação pela água; e vacinação em massa, evitando o contágio.


O que nós temos a ver com isso?
Provavelmente, somos culpados pela resistência desse tipo de doença, já que elas só são contraídas por contaminação. Ou seja, se um cidadão viaja para outro país onde esteja ocorrendo alguma epidemia e ele não estiver vacinado, é contaminado e, quando volta para casa, espalha a doença para outros tantos. “Este é o risco da Globalização. Apesar de facilitar a eliminação de doenças, também acaba contribuindo para a disseminação”, diz Dr. Paulo. Mas, graças à vacinação em massa, que pode conter qualquer tentativa de epidemia, a previsão é que, em médio prazo, essas doenças sumam de vez.

AIDS
A AIDS é um caso à parte. Apesar de seu fantasma não ser tão assustador quanto o de 20 anos atrás, é uma doença que dificilmente sumirá, já que o infectado é um portador crônico. E, ainda que seja de difícil contágio – para se ter idéia, apenas 30% dos bebês de mulheres soropositivas contrai o vírus -, não é possível controlar o comportamento dos soropositivos, até porque muitos se concentram em lugares com pouco acesso a informações, educação sexual e cuidados básicos.

Tempos modernos
Hoje, existem dois cenários paralelos, mas que funcionam basicamente um em função do outro. De um lado, temos a vida moderna: estresse, trânsito, excesso de trabalho, má alimentação, sedentarismo, avanço incessante da tecnologia. De outro, a onda de qualidade de vida, bem estar e suas vertentes, que veio com a proposta de amenizar os efeitos da primeira. Mas a falta de equilíbrio das duas partes acaba, a curto ou médio prazo, trazendo conseqüências como o aumento da incidência de algumas doenças e criando novas. “A preocupação excessiva com a saúde também é uma doença. Hoje, temos um avanço impressionante de hipocondríacos.”, diz Dr. Paulo. Ou seja, dosar nossas atitudes ainda é o melhor remédio, sobretudo como forma de prevenção.

Vida longa
A nova expectativa de longevidade do homem aumentou, ironicamente, os casos de doenças neurodegenerativas – como Mal de Parkinson, Alzheimer -, doenças cardiovasculares e câncer. Por outro lado, a mortalidade tardia alavanca os estudos de genética, facilitando os estudos e promovendo novas descobertas.


Somos o que comemos
Gordura trans, sal, corantes são alguns dos venenos que ingerimos diariamente. “Hoje, os alimentos são desenvolvidos para serem, antes de tudo, saborosos e atraentes. O saudável fica em segundo plano”, diz o Dr. Paulo. Daí ocorre um crescimento inesperado de enfermidades sem uma especificação clara do motivo, como o aumento de casos de problema na tireóide, por exemplo, que pesquisas já apontaram o iodo em excesso no sal como possível culpado.


Novos nomes, velhas doenças
Fala-se muito de males modernos, provocados pela vida corrida e cada vez mais solitária do homem da cidade: Síndrome do Pânico, TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), Bipolaridade. Segundo o Dr. Paulo, essas doenças são mais antigas do que se tem notícia, o que mudou foi a forma de chamá-las, o que acabou determinando novos nichos no mercado farmacêutico. “As pessoas sofrem de pânico faz tempo, isso não é novidade. O que aconteceu é que definiram-se novos nomes para identificar essas doenças”, diz.


O que nós temos a ver com isso? Tudo, já que muitas de nossas ações podem gerar conseqüências inesperadas e em menos tempo do que imaginamos. Não existe uma receita exata nem um futuro certo. Nossos hábitos, vícios, cultura, comportamento e educação interferem bastante no caminho da Medicina em busca de novas soluções e prognósticos mais corretos. Isso significa que sempre esperaremos por curas revolucionárias e descobertas fantásticas, mas é essencial fazermos nossa parte. Sem exageros.



Crédito: Dr. Paulo Olzon Monteiro da Silva (Chefe da Disciplina de Clínica Médica da Unifesp)

Fonte:
-Dr. Paulo Olzon
- http://jmr.medstudents.com.br/variola.htm

Serviço:
Dr. Paulo Olzon
Tel.: (11) 5539 5200
*Sem edição.