Cotidianices

Dia-a-dia parece mais do mesmo. O trabalho, as pessoas, a comida, os caminhos, enfim, a velha vidinha de sempre. Não importa se você tem o melhor emprego do mundo, as pessoas mais maravilhosas ao seu redor ou se vai trabalhar de helicóptero para não pegar trânsito, rotina cansa. Ricos ou pobres, velhos ou novos, loiros ou morenos, somos todos vítimas do cotidiano. A não ser que você seja a Glória Maria, que conhece os lugares mais legais do mundo e pessoas super interessantes toda semana, de vez em quando é normal ter uma crise, querer ir embora e abrir uma pousada em Itacaré.
Mas a vida é assim, às vezes chata, às vezes legal, às vezes diferente, às vezes igual, em São Paulo ou na Bahia. Bacana é dividir e comparar aquelas velhas situações que todo mundo passa, uma hora ou outra. Quem não tem uma história para contar? Ou é o trânsito que dá para fazer amizade com o carro vizinho, o tchau devolvido que não era para você, o oi-tá-frio-oi-tá-calor do elevador, o e-mail de alguém que deixou saudade, enfim, acontecimentos diários que proporcionam momentos únicos. Porque rotina gruda mesmo, está sempre lá, invicta e insubstituível e o jeito é tirar o melhor dela e exalar nossa joie du vivre por todos os cantos. Afinal, é a velha história: se não pode com ela, junte-se a ela e seja feliz.


No telefone
Alguns canais da minha tevê a cabo estavam fora do ar. Liguei, então, para o atendimento deles, esperando que alguém resolvesse o meu problema.
Atendeu uma moça:
- Boa tarde, em que posso ajudá-la?
- Oi, alguns canais da minha tevê estão fora do ar, vocês podem me ajudar, por favor?
- Seu nome, por favor?
Já prevendo a novela, eu tento:
- Tem que ser o nome inteiro?
- Sim, por favor. Para localizar o assinante precisamos do nome completo.
- Ok, vamos lá, Alana De...
Ela me interrompe:
- Como? Amanda?
- Não, Alana.
- Aline?
- Não, Alana, Aaalaaanaaa!
- Alândia?
Uau, de onde ela tirou esse? Até o meu nome é mais fácil! E eu, quase gritando:
- Nãããããããooo, Alana. A-ele-a-ene-a!
- Ahhhh... Alana! De quê?
Ai, pronto, de novo:
- Della, com dê de dado e dois eles...
- Bella?
- Não, moça, acabei de falar: dê de dado! E não bê de bola!
- Ahhh... dois eles, né?
- Isso... Nina, ene de navio, ene de navio... separado do Della.
Eu até ja decorei o dê-de-dado-dois-eles-ene-de-navio-ene-de-navio-separado-do-della, que nem aquele jingle do big mac.
Mas voltando à atendente:
- Ene de navio?
- É, minha senhora.
- Como assim?
- Ene de navio-i-ene de navio-a. Nina.
- Ahhh tá. Tudo junto?
E eu, quase chorando:
- Não, moça, é separado... separado. Della espaço Nina.
- Ah sim. Que mais?
- Ai, moça, só com esses já não dá para achar? Eu devo ser a única Alana Della Nina cliente de vocês. Aliás, eu devo ser a única Alana Della Nina no mundo!
Ela não deve ter gostado da brincadeira, porque disse:
- Senhora Alana, eu preciso do nome inteiro.
Ok, vai, eu aguentei até aqui, não é o fim do mundo, a última parte é mais fácil:
- Almeida Melo.
- Melo com dois eles?
Será que ela estava falando sério?
- Não, o Melo tem um ele só, minha senhora e o Almeida também!
Silêncio na outra linha. Mais uma brincadeira infeliz da minha parte.
Então, para o meu horror, ela fala:
- Dona Alana, eu não estou localizando o nome da senhora. A senhora pode repetir?
Eu desliguei. Quer saber? Acho que eu posso viver sem esses canais.
P.S.: Para quem não sabe e caso não tenha ficado claro, meu nome é Alana Della Nina de Almeida Melo. Uma graça, né? Pois é, mas nada funcional. Sempre passo por estas coisas. Fora o velho e bom "Alana? Morissette?" e as piadinhas "Alanas de Pijamas", "Alana, cara de banana" e outras menos ortodoxas envolvendo bananas e coisas de mau gosto, mas essa fase já passou. No fim das contas, cheguei à conclusão que apenas pessoas que se chamam João da Silva ou algo do gênero não sofrem com o nome de alguma forma. Então, paciência, as pessoas que se adaptem aos seus próprios nomes ou aos alheios. E viva a criatividade dos nossos pais!


No trânsito
Aqui impera a Lei de Murphy. Incontestavelmente. Ok, sem a velha história da fila do lado andar mais rápido do que a minha. Mas trânsito que é trânsito não falha e te surpreende. Embora esta não tenha acontecido na rua em movimento propriamente, e sim, quando fui estacionar o carro. Você sabe, em São Paulo existe uma conspiração contra aqueles que querem parar seus carros na rua de graça. Ou é a tal da Zona Azul, ou é proibido estacionar mesmo e ninguém sabe o porquê ou são aqueles hominhos que adquiriram o direito, ninguém sabe de quem, de cobrar você por deixar seu carro em um determinado espaço. Mas, enfim, eu parei em um suposto ponto de ônibus. Suposto porque eu tinha quase certeza que ele estava desativado, afinal, o que nunca faltou por ali foi carro estacionado. Tá, você deve estar pensando: mas Murphy não tem nada a ver com isso, você estaciona no ponto de ônibus e acha que está tudo bem? Bom, primeiro que eu nem parei no ponto mesmo, foi bem mais para frente, dava para um ônibus encostar e sair tranqüilamente. Segundo que eu parei por cinco minutos, juro! E terceiro, eram quase dez horas da noite de uma terça-feira chuvosa. Vai, quais são as chances de levar uma multa por causa disso? E é aí que o Murphy, finalmente, entra.
Continuando, eu estava indo para a faculdade levar um documento, aí logo vi a vaguinha no tal ponto de ônibus e parei lá, pensando otimista: "ah, é rapidinho! Não vai acontecer nada!". E eu realmente entreguei o documento rapidinho. Mas, quando eu estava voltando para o carro, eu e meu estômago, mais guloso do que faminto, nos deparamos com aqueles carrinhos de cachorro-quente. Então pensei: "Hum, vou pedir um para viagem". Pedi com tudo o que eu tinha direito neste mundo, até cheddar e barbecue, o homem enrolou em um papel-toalha e me deu. Lá fui eu, feliz e contente, louca para chegar em casa e comer meu dog. Quase chegando no carro, eu o vi, do lado do meu possante, intrépido, implacável e de bloquinho e caneta na mão. Acho que eu repeti umas 30 vezes consecutivas a frase: "Não me multa, por favor, não me multa!" Ele já devia estar acostumado, porque me olhou com aquela cara de ai-lá-vem e disse: "Mas, moça, você parou em um ponto de ônibus!". Aí eu usei os mesmos argumentos que apresentei lá em cima e ele repetiu: "Moça, isto é um ponto de ônibus" e frisou: "você poderia ter sido guinchada até". Eu tive um ímpeto de jogar meu cachorro-quente embrulhado em papel-toalha nele em uma tentativa de suborno, mas me controlei com a certeza de que, além de fracassar, ele poderia entender errado e me dar outra multa por agressão, sei lá, vai saber, tudo hoje em dia dá multa. Então me contentei em usar meu charme feminino e fazer uma voz tatibitati, implorando: "por favooooooorrrr, por favoooooorrrr". Quando eu comecei a me dar conta de que, talvez, uma multa não seria tão grave quanto ao ridículo que eu estava me submetendo por causa dela, ele finalmente disse: "olha, moça, eu vou ver o que eu posso fazer. O problema é que eu já escrevi no bloquinho e ele é numerado. Se a senhora tivesse voltado um pouquinho antes... Mas eu vou tentar, só não prometo que vou conseguir". Bom, tive que me contentar com essa resposta e aguardar para ver se a minha carta, imaculada até então, ganharia os três pontos (ou cinco?) e se a minha carteira sofreria um rombo considerável.
Moral da história? Se te falarem que um ponto de ônibus está desativado, não acredite porque ele provavelmente não está, senão já não teria nem mais ponto, nem mais ônibus (pois é, eu podia ter pensado nisso antes. Vivendo e aprendendo.), e cachorro-quente faz mal, engorda e, definitivamente, não vale uma multa. Vá para casa e coma uma alface.

No Supermercado
Poucas coisas na vida me dão mais preguiça do que ir ao supermercado. Não estou falando sobre comprar cervejas e doritos no sábado à noite, mas sim quando chega a hora das temíveis Compras do Mês. E se você me disser que é uma delícia comprar comida, vou te responder que não, uma delícia é comer, mas todo o processo que se desenrola até aqui – considerando, obviamente, que você tenha que comprar a sua comida e não ir a um restaurante (isso fica para um próximo capítulo) – é extremamente cansativo e chato, para ser bem honesta. Aí você também pode dizer que não há nada mais fofo do que recém-casados fazendo comprinhas como vinhos, queijos e danettes. Aposto que isso não dura até o terceiro mês sob o mesmo teto. Daqui a pouco eles estarão disputando no par ou ímpar quem vai cumprir a missão. Espere e verá.

Agora voltando ao caos: tudo começa quando você vai tentar parar seu carro no estacionamento do mercado. Se ele está lotado, mau sinal. Você já prevê que ficará horas e horas na fila do pão, na fila dos frios, na fila da carne e, finalmente, na maior e mais horrorosa de todas: a fila do caixa. Aí você roda, roda, roda, e quando está prestes a desistir, pegar um big mac no caminho e ir para casa, eis que surge, em direção ao carro que está na sua frente, uma tia com o carrinho! Entupido, tudo bem, mas você já chegou até aqui mesmo, então aguarda. Após 25 minutos esperando que ela decida se coloca os ovos em cima do leite ou embaixo do presunto, você já está profundamente arrependido de não ter optado pelo big mac, ah, o big mac. E, então, nos seus devaneios entre os picles e o molho especial, a fofa finalmente parte. Primeira fase concluída.

Não, eu não vou falar dos carrinhos rangentes porque aí vai ser rabugice da minha parte. Mas eu sempre pego os carrinhos rangentes. Tá bom, problema meu.

Se você é mais organizado do que eu, provavelmente fez uma listinha (que entra em outra das aporrinhações de fazer mercado). Então, sua vida está, aparentemente, facilitada e você vai felizinho percorrer os corredores aos quais já estava destinado ouvindo aquela musiquinha mela-cueca de fundo. Mas – haha, eu não falho – sem deixar de contar que você pode não encontrar muitos dos produtos anotados, especialmente legumes (eu, particularmente, não vejo muita diferença entre eles), e agora vai ter que arrumar substitutos. Viu? Trabalho dobrado. Fora o suplício que é já ter colocado 30 itens no carrinho e ver que ainda existem uns 40 na listinha sem ticar.
Agora, se não, se você é espontâneo (e preguiçoso) como eu e nem pensou na listinha, vai andar trocentas vezes por aqueles intermináveis corredores, sem saber o que escolher, meio com fome e meio enjoado de ver tanta comida e com a trilha sonora na ponta da língua.
Depois de três horas e meia, você chega à já mencionada fila do caixa. Lixa as unhas, lê uma revista da gôndola, trava um daqueles papos sociais sobre as peculiaridades de um supermercado com o vizinho da frente. E, se a fila demorar mais um pouco, vocês partem para as peculiaridades da vida até chegarem ao último pé-na-bunda que você, ou ele, tomou e a vaca que ela era (se você for menina, por favor, troque os sexos. Mas a vaca pode continuar, caso prefira). Ótima maneira de fazer amigos.
Ainda sobre o tópico filas, preciso falar especialmente da Fila Rápida De No Máximo Dez Itens. Porque parece que algumas pessoas não aprenderam a contar ou têm uma cara-de-pau absurda mesmo. Eu simplesmente não sei como reagir quando o Fulano na minha frente tem, pelo menos, umas 30 coisas no seu carrinho. Pô, o que caracteriza uma fila rápida é ela ser rápida, sua besta! Não, eu não digo isso, apenas penso. Com uma intensidade que às vezes desconfio que o Fulano captou telepaticamente. Mas deve ser apenas a minha cara, um provável misto de ódio, indignação e impotência, só que ainda não piores do que a vergonha de fazer um escândalo em público por um pecado que todos ao redor se solidarizam. Afinal, quem nunca passou seus treze produtinhos na fila especial?
Então, você paga suas compras, que, invariavelmente, ficam mais caras do que você esperava e chegamos à Fase 4: embalar as compras. Não vou me prolongar muito aqui, porque a maioria dos estabelecimentos conta com meninos para fazer isso por você. Mas a maioria dos estabelecimentos também preza pela economia de sacolas, o que resulta em lasanhas congeladas entulhadas no mesmo espaço que rolos de papel higiênico e o risco de estourar o saquinho e suas compras rolarem rua abaixo.
Fase 5: Descarregar as compras no carro. Bem-feito, quem manda tirar sarro da tiazinha? Agora você também vai ter que se preocupar com a organização das sacolas no seu porta-malas, de forma que nada quebre, derrube, manche, misture e deixe um fedor irrecuperável no carro. Isso tudo com o olhar opressivo do você-no-passado, ou seja, alguém que está esperando para pegar a sua vaga.
Eis que você chega em casa e à Fase 6: descarregar o porta-malas. Se você mora em prédio, talvez possa contar com um carrinho ou, pelo menos, com uma mãozinha do porteiro. Se você mora em casa, ou vai ter que se transformar no Hulk Equilibrista, carregando várias sacolas, enquanto tranca o carro e tira as chaves de casa ou vai ter que fazer várias viagens até levar tudo para dentro. Mas nada, nada, supera a Fase 7: guardar as compras. Primeiro porque você já está acabado pelas seis fases anteriores e só queria descansar um pouco. Só um pouco! É pedir muito? Depois porque você tem que ficar separando o que é de geladeira para a geladeira, o que é de dispensa para a dispensa, o que é de banheiro para o banheiro e o que é de limpeza para a área de serviço. E, logicamente, organizar as coisas nos seus respectivos lugares, bonitinhas e devidamente encaixadas.

Ufa. Acho que é isso. E antes que você me acuse de sofrer supermercadofobia, saiba que eu não sou tão cricri assim. Ainda curto as musiquinhas, o movimento, ovos de chocolate na Páscoa e panetones no Natal. E todo o resto faz parte do grande ritual das compras, então a gente acaba se divertindo de um jeito ou de outro. E, vai, o êxtase que te consome depois da cozinha arrumada e a certeza de que você tem um armário cheio de comidas não compensa tudo isso? Foi como eu disse. Legal é comer, o resto é consequência. Ou não.