Até que ele nos separe

O Clube dos Solteiros que me perdoe, mas namorar é muito legal. Os soltinhos podem até levantar a bandeira daquela história de liberdade, não dever satisfação para ninguém, ir em todas as baladas, agarrar todo mundo, jogar futebol e ficar sujo e fedorento o resto da tarde deitado no sofá vendo mais futebol sem ninguém pentelhando. Mas é fato que quando você encontra um lugar para amarrar o burro não quer soltar mais. Amor é importante e você só descobre isso quando ele está na sua vida. Ter uma mulher bacana para dividir as coisas do dia-a-dia, mais beijo, abraço, sexo, cineminha, cerveja e todas aquelas combinações interessantes é sombra e água fresca, uma maravilha. E, pela lei das compensações, vale a pena. Ou seja, você pode não apertar 17 corpinhos diferentes numa única noite, só que, em contrapartida, vai apertar o mesmo que você conhece, gosta e confia pela noite inteira. Quantidade por qualidade. Bela troca, né? Fora a intimidade, cumplicidade, carinho, companhia...
Aí o sozinho-por-opção de plantão lembra dos almoços em família, festinhas de sobrinhos e outras situações em que você, certamente, preferia estar sujo e fedorento no seu sofá vendo o futebol. Ainda assim, eu continuo afirmando: vale a pena. A intensidade de um relacionamento é bem mais divertida do que noites vazias e dias solitários.
Mas a regra do exagero vale aqui também, namoro bom é namoro equilibrado, aquele que, entre algumas tempestades, é feliz, saudável e te faz bem. Pode acontecer de uma louca cruzar o seu caminho, mas se você achar a suposta tampa da sua panela, não dê você uma de louco porque isso pode botar tudo a perder. Lembre-se que sua namorada não é sua mãe e ela não tem obrigação de te aguentar.
Pensando em te ajudar a ser o namoradão do ano, eu listei, com base na minha, ok, curta experiência de vida e constante observação do comportamento humano, os tipos que praticamente imploram por um pé na bunda todo dia. Veja se você não se encaixa em nenhum deles, caso se encaixe, larga de ser besta, caso não, parabéns e guarde para consultas posteriores.

Prazer, eu sou o Zé da Esquina
Você já deve ter visto acontecer com um amigo seu. Digo amigo porque este é um mal quase que exclusivamente masculino. O cara conhece a mulher dos sonhos, dá tudo certo, eles engatam um namoro. De repente, ele começa a faltar nos programas dos bolinhas. Primeiro o happy-hour, depois o futebol, até que some completamente do mapa. Aí surgem as hipóteses: "a mina é um E.T. e ele foi abduzido" ou "aquela bunda, eu sabia que aquela bunda tinha algum efeito hipnotizador" ou "será que ele era virgem e ela prometeu sexo em troca de devoção eterna?". É um mistério total o poder que a namorada exerce sobre o cara, parece que ele tem um botão on/off e só ela sabe onde fica. Fato é que o bacanão da turma, social, festeiro, amigo de todo mundo, de uma hora para outra, se tornou o "namorado da Fulana", cujo nome ninguém lembra direito. A parte mais surpreendente é que, algumas vezes, nem ela esperava que o namorado perdesse a alma. Tudo bem, às vezes a menina tem sua culpa, ela incentiva, ameaça, bate o pé e faz do cara o que quiser. Mas, mesmo assim, se ele permite, já tem alguma coisa errada. E de onde vem essa auto-anulação? É fruto de uma carência afetiva, cuja responsabilidade de suprir é jogada nas costas da primeira que aparecer? Ou ele é só um mascarado, que tem toda a pinta de dono da vida, mas na vez dele não impõe nada e se mostra absolutamente sem personalidade? Independentemente da resposta, o que importa mesmo é que o cara vai perder. Vai perder os amigos, as coisas que ele gosta de fazer, a individualidade, as vontades e, lógico, a namorada. Se ele não consegue nem respirar sem a menina e é capaz de transformá-la na sua estrutura vital, as chances de se dar mal nesta história são altas.
A solução? Olha, honestamente, eu não sei. Acho que o auto-diagnóstico é complicado. Mas se o cara se tocar que o caminho está errado, acredito solenemente que dá para mudar o rumo. Olhar para outros lugares, ver o que deixou de lado, recuperar sua vida, sua essência, não depender dela. Quem sabe assim dê para perceber o quanto é importante se gostar em primeiro lugar.

Norman Bates
Poucas coisas são tão ruins para nós, mulheres, como namorados que querem limitar nossas vidas à existência deles. Traduzindo: o ciumento, psicopata, obsessivo. É um saco ter que dar satisfação, explicar que você não atendeu o telefone porque estava comprando pão. O cara diz que confia, mas se a namorada arrisca falar que hoje vai ter um programa de lulus, seja tricotar, comer uma pizza, qualquer coisa assim, ele vira fera e acha que programa de lulus só pode significar ir ao clube das mulheres. A melhor amiga dela vira a malvada do ano, cuja única missão na Terra é fazer com que a menina coloque um belo par de chifres na cabeça dele. Por mais que o doido mereça, ela não faz isso e, do mesmo jeito, continua sendo vítima de agressividade, loucura e insegurança. Cena comum essa. E insuportável. Tudo bem achar que sair de decote + minissaia é um pouco demais. E também concordo que tem muita mulher por aí que gosta de ser malandra, deixar os homens alucinados, roendo as unhas do dedão do pé, porque as das mãos já acabaram. Só que o assunto aqui é o ciúme sem propósito, do cara que é inseguro e, mesmo que a menina seja a mais fiel e dedicada das criaturas, ele fica mal.
Entre a mulherada inconformada, a única explicação possível é a seguinte: o cara é cafa. Sabe como é, o ser humano tem o terrível costume de achar que o mundo é um espelho e que todos pensam e agem como ele. Logo, o espertinho, em vez de se sentir culpado por ser um galinhão, fica morrendo de medo de que a menina também esteja batendo asas por aí. Acho até plausível, mas me convence mais a questão da insegurança, aquela história de não confiar no próprio taco. O cara tem uma auto-estima tão baixa que só consegue lidar com isso na porrada. Às vezes, literalmente.
O Norman Bates só não é Zé da Esquina porque ele tem identidade, personalidade e deixa claro: quem manda é ele. Mas o tipo obsessivo é o mesmo.
Muito se engana quem acredita que o amor fala mais alto e a namorada não larga o cara. Mesmo que ela o ame loucamente, não tem como aguentar e, no final, larga sim, mas precisa tomar coragem e medidas preventivas antes. Sem brincadeira, tem homem que pira quando leva um fora, persegue a namorada, ameaça se matar, matá-la e matar o primeiro que encostar nela, chora, grita, faz escândalo, liga para a mãe da coitada, enfim, horrores.
Se você for um ciumento leve, daqueles que não gostam de ex-namorados insistentes ou de ver a bonitinha rodeada de marmanjo, normal, só cuidado como vai lidar com a situação. Mas se for pesadão, daquele que controla cada passo da menina, acorda! Você não é dono de ninguém e vai acabar, na melhor das hipóteses, sozinho e, na pior, preso.

Eu, você e todo mundo
Homem cheio de amiga é o terror de qualquer namorada. Se for amiga de verdade, daquelas estilo irmã, é até aceitável, o problema é quando ele é o mister social e trata todas carinhosamente, com nominhos fofinhos, mil abracinhos e beijinhos. Pelos diminutivos, dá para sentir o tom pejorativo, né? É, irrita mesmo. Pior ainda é quando as amiguinhas tratam a menina mal, olham torto e ainda têm a coragem de chamá-la de sua namoradinha. Aí é o fim. Para você, homem, desligado e alheio aos problemas femininos, isso não deve significar muita coisa. Mas tenha certeza que a sua pobre garota fica doida com isso. E não é de ciúmes, acredite. É que é insuportável ter um namorado que não defende, impõe, cuida. Aí ela vira motivo de chacota e quem perde pontos é você. Também, parece que a menina tem que te dividir com todo mundo. Que fulana e beltrana conhecem você melhor do que ela. Que hoje não vai dar para sair porque vai jogar bola, amanhã também não porque vai ter uma festinha de despedida de algum amigo e por aí vai. Aprenda: mulher não gosta de ficar em segundo plano. Ela não precisa ser a razão da sua vida, mas também não dá para ocupar o último lugar da fila. Até porque o último lugar da fila é tão tedioso e solitário que abre espaço para procurar posições mais favoráveis nas filas alheias, como a daquele bonitão que sempre deu em cima dela e aguarda ansiosamente por uma oportunidade de mostrar como está disposto a dar toda atenção e amor do mundo, de braços (e que braços) bem abertos para a fofa.
Mostre o quanto ela é importante, seja carinhoso. Aí você me fala: mas eu sou péssimo para demonstrar meus sentimentos. Tá, mas mesmo concordando que mulher é literal até os ossos, acho que existem outras formas não-verbais de dizer à sua respectiva que ela é seu doce de coco. Se ela te conhecer bem, vai entender.
Muita gente nem se dá conta do quanto é valioso investir em um relacionamento bacana. É tão difícil achar uma pessoa que, além de legal, seja a sua cara e goste de você de verdade. Por isso, dê atenção para a sua namorada, cuide dela, faça a menina se sentir especial e única, ela merece.

A Última Banana do Planeta dos Macacos
Lembra do Zé da Esquina? Este é exatamente o contrário. Tem um ego tão inflado que faria Narciso ressuscitar do lago. Acha que a escolhida para ocupar o posto de namorada devia ajoelhar no milho seco e agradecer todos os dias por ter um homem tão maravilhoso ao seu lado. O cara se acha pacas. Ele e mais ninguém. Talvez a mãe ou uma e outra perdida, mas, no geral, este tipo incomoda muita gente. E nem se toca.
A namorada é uma vítima em potencial. Não pode ser mais bonita, inteligente ou fazer piadas mais engraçadas. Não pode aparecer mais, ganhar mais e ser melhor no videogame. Isso não significa que ele queira uma mula horrenda do lado dele, afinal, um adônis como ele precisa estar bem acompanhado. O que importa mesmo é que ela seja sempre menos.
O cara tenta anular a menina, amarrá-la aos pés dele, deixá-la em um papel secundário, aqui ela é a "namorada do Fulano", sempre apagadinha, sempre atrás.
Sim, ela pode ser uma Maria da Esquina Com Incentivo, mas é raro. Geralmente, ela nem percebe que está sendo "convertida" e, quando se dá conta, ou tenta mudar ou cai fora. Isso mesmo, cai fora. Ninguém aguenta viver à sombra do outro.
Engraçado no Última Banana é que essa concorrência ele só disputa com a menina, não se opõe ao amigo mais bonito, ao coleguinha de baia mais inteligente, ao cara do clube melhor no futebol. Porque é nesse ponto que entra a namorada-bode-expiatório. E é nela que ele aproveita para ficar por cima. Triste, né? Principalmente porque o cara faz questão de mostrar ao mundo a sua superioridade e joga a coitada lá no chão.
Mas tudo muda de figura quando a tal da coitada vira o jogo e manda o cara passear, bem longe de preferência. E só assim o bonitão tem consciência de sua perda, mesmo que não se dê conta de que foi provocada por ele. E, às vezes nem assim, já que falta a percepção de que não há santo que tolere essa egotrip e comportamento mesquinho. Afinal, a história é esta mesma: já que você se basta sozinho, fique sozinho.

Síndrome de Pinóquio
Pior do que homem que mente é homem que não sabe mentir. Aquele que é mau caráter mas não consegue ser malandro. Que tenta enganar a namorada, mas gagueja diante de uma perguntinha inocente. E é tão covarde que foge ao menor sinal de fumaça. Nenhum charme.
Não, não estou defendendo os cafajestes-mestres em absoluto. Deetesto esse tipo e morro de vontade de arrancar as unhas deles com alicate de mecânico. Mas já é um velho conhecido com a mesma fórmulinha de sempre. Sem segredo, só cai quem quer.
Agora o covarde é o fim da picada, porque além de tentar enganar a menina, não tem firmeza, não tem palavra, não tem nada, só uma cara de bocó que não comove nem a mãe dele. Quando mente, fica tão inseguro que se entrega sozinho, ou, metaforicamente, fazendo jus ao título, sente seu nariz crescer.
Ele não merecia nem esta coluna, não fosse pelo fato da máscara de pobre-coitado lhe cair tão bem no começo. O sujeito faz o gênero fofinho, queridinho, cachorro magro e perdido, que dá vontade de colocar no bolso. Aí a menina sozinha, desemparada, jura que nunca conheceu uma criatura tão gentil na vida e se encanta no mesmo segundo. E desencanta, lógico. Afinal, máscara que é máscara, tcharam, uma hora cai. Aí ela percebe que além do cara ser um bundão de primeira, ainda tem a pachorra de tentar fazê-la de besta, vê se pode. O desfecho é previsível: a furiosa garota, na sua condição de mulher-enganada-por-um-trouxa vira o diabo e manda o cara para o inferno com o rabo entre as pernas.
Fica como lição descobrir que é uma tolice fenomenal tentar ser algo que a gente não é. Principalmente se esse algo for ruim. Se você é bonzinho, não tente dar uma de pitbull. Assuma seu lado bebê e seja feliz, uma hora você encontra alguma garota que ache isso superlegal, por mais difícil que seja crer que as mulheres não gostam só dos maus. Mesmo sabendo que a maioria prefere, eu ainda acho que todo pé tem seu chinelinho, então acredite, você acaba encontrando a sua cara-metade.



Você deve estar me achando a mais exigente das criaturas e que eu não tenho nada mais a fazer a não ser buscar o protótipo do homem perfeito. Mas, com sua perspicácia masculina, pôde reparar que todos os meus padrões de fora-instantâneo acima têm muito em comum. Eles se misturam, às vezes se contrariam, às vezes se complementam.
Eu tentei fazer aqui um retrato das características realmente insuportáveis e que, no fundo, são tão ruins porque denotam a mesma coisa: falta de respeito. Afinal, o respeito mútuo é a base de qualquer relacionamento no mundo, seja sua namorada, seu amigo, sua mãe ou seu cachorro e, se ele não estiver nos mínimos detalhes, nada funciona.
Se eu fosse listar todas as coisas chatinhas, ainda colocaria: o que levanta a tampa da privada para sempre, o que deixa tudo espalhado como se tivesse tirado cada peça de roupa em um aposento diferente, o que muda constantemente os canais da televisão, o que não percebe que a namorada cortou o cabelo, pintou as unhas, sei lá, mudou alguma coisa no visual, o que fala que a menina está gorda, mas fica bravo porque ela recusa um chopinho, enfim, aquele monte de clichês que você certamente já conhece. Mas todas essas coisas fazem parte da convivência e não matam ninguém.
Onde importa mesmo é lá no fundo, é você saber que, a partir do momento que está com alguém, se torna responsável pelos sentimentos que causa na pessoa. Em partes, pelo menos. É aprender a viver, respeitar, conhecer, compartilhar. E ter prazer em tudo isso.
Namorar é legal mesmo e com o tudo o mais que já falamos é melhor ainda. Então, torço para que você ache a sua tampinha. Caso já tenha encontrado, comporte-se como uma boa panela e seja feliz.

17/11/2006